Locus Scriptorum
Ensaios

Requiem para Daniel

12 min · junho 16, 2026

Parte 01 —

A espera

Eu fecho os olhos e vejo o neném correndo pela casa, as risadas, o menino no meu colo, as noites sem dormir. Nada disso vai mais acontecer.

O primeiro sorriso, as primeiras palavras, e as sessões de leitura. Todas essas imagens surgem e desaparecem, dando-me uma dimensão concreta do que foi perdido.

Eu consigo imaginá-lo encolhido, cercado pela escuridão uterina, esperando aquele momento em que os seus olhos veriam a luz. Mas esse momento não vai mais chegar.

Agora tudo que resta é uma longa espera. Pois mesmo sem vida, o menino terá de nascer. Só me resta crer, com a pouca fé que tenho, que ele já nasceu para uma luz maior e mais verdadeira.

Quero ainda pegá-lo nos braços e dizer-lhe que foi amado, pelo tempo em que aqui esteve. Quero dizer-lhe que sou seu pai e que ele sempre terá um lugar na nossa família. Que nunca será esquecido. E assim eu preparo uma despedida para quem nunca chegará de fato.

Eu sei como são essas coisas. Não há consolo. Acostumamo-nos com a dor até que cesse de doer. E no entanto, sei que haverá momentos em que as imagens do dia de hoje se erguerão diante de mim como se fossem tempo presente, e a dor estará ali, por inteiro.

Ó meu filho, como foi possível que você tenha estado aqui tão perto e os meus braços não lhe tenham protegido? Me dói que eles não tenham sido capazes de te proteger. Há poucos dias você ainda se mexia, e por que agora jaz tão quieto?

Onde está a sua fome, para que nós te amamentemos? Onde o seu sono, para que te ninemos? Para todos os lugares onde olho, onde haveria a sua vida, agora só há silêncio.

E no fim das contas só me resta esperar.

Minhas mãos se erguem espontaneamente para o alto pedindo. Mas pedindo o quê? Um milagre? Não creio, ou tenho medo de crer e me frustrar.

Deus, por favor, cuide do meu pequeno. Dê a ele os cuidados que eu próprio gostaria de ter dado. Conforte-lhe do choro que eu nunca irei ouvir.

E me ajude, Senhor,

Ajude-me a aceitar o destino que lhe foi dado.

Parte 02 —

Pós-parto

Eu não consigo parar de pensar: minha mente remonta toda a cadeia de causas e eu fico pensando em todas as coisas que talvez pudesse ter feito e não fiz para evitar tudo isso. Eu não fui cuidadoso o suficiente. Eu poderia ter me preparado mais.

Um pai não deveria ter de segurar nos braços o corpo gelado e sem vida do seu filho, e isso é culpa minha. Se eu tivesse lido mais sobre diabetes gestacional, se tivesse cavucado, encontrava a informação de que havia risco de óbito fetal. Por que os médicos não alertaram? Por que eu não fiz isso!? Uma coisa tão simples? Eu não sei, e não consigo me perdoar de não ter feito.

Falam-me que é preciso superar. Como superar uma criança morta? Eu não quero superar nada. Superar me parece desumano. Eu só quero tê-lo ao meu lado. Tê-lo comigo.

Falam-me que é preciso seguir adiante. Mas para onde? Seguir para quê? Eu não vejo mais caminho, nem propósito. Penso no meu filho querido de pé, do outro lado do rio que todos iremos atravessar. Ele se parece com o Alexandre. Tudo o que eu quero é ir para junto dele.

Saio um pouco desse espaço onírico, e o trato com as coisas do mundo me distrai um pouco de toda a dor.

Ao sair do estacionamento do hospital noto, algo surpreso, que as catracas ainda funcionam e os funcionários ainda dão baixa nos tíquetes e cobram por eles. E recupero o senso de que, afinal de contas, os sistemas do mundo continuam tão operantes quanto antes. No caminho para o carro, algo me pega de surpresa e me assusta. Aí noto que os meus sistemas também continuam operando normalmente. A surpresa está aqui, e o medo também.

Olho constantemente para a Carol tentando cumprir em alguma coisa o meu papel de marido. Mas ela está desconsolada, e eu próprio não sei o caminho da consolação. Meus gestos de cuidado não são capazes de alcançá-la. Sinto-me um camarão limpando os dentes de um peixe maior.

Tudo muda depois que você segura o seu filho morto nos braços. Não há peito que suporte isso sem sair dilacerado.

Os afazeres se impõe. É preciso tomar banho, comprar remédios e tudo isso me afasta desse lugar íntimo. Poderia ser reconfortante, se não fosse a culpa, a vontade de morrer, de ir junto, que me invadem os pensamentos e não me saem do peito.

Consigo, afinal de contas, me sentar e meu olhar vagueia. Imagino que ele e o irmão seriam de idade próxima, seriam parceiros, brincariam muito e também brigariam muito. Ele cresceria e em algum momento se casaria, e essa pessoa com quem ele se casaria agora terá de encontrar outro. Ele faria viagens, teria amigos, conheceria pessoas. Nada disso vai acontecer.

E assim minha mente vai sondando o passado e conjecturando o futuro.

Aí olho novamente e vejo o meu menino, do outro lado do rio que todos iremos atravessar. Sinto-me o pior pai do mundo. Deus não me deu esse menino porque eu não mereço.

Vejo meu filho e me lembro de me colocar um pouco no seu lugar e enxergar o mundo pelos seus olhos. Pela sua perspectiva.

Não há nele julgamento ou reprovação em relação a mim. Eu me vejo pelos olhos e pelo coração daquela criança, e é um olhar tão singelo. Eu poderia dizer que é um carinho, mas vai além. É uma inocência tão pura e simples que nem consigo qualificar. Ele não me tem rancor. Ele me ama, afinal de contas.

Então olho para esses pequenos do lado de cá e vejo que toda a vida deles depende de mim. O que será do Joaquim, da Carol, do Alexandre se eu não estiver aqui para eles? O teatro da minha mente exibe toda uma série de desdobramentos e consequências nefastas que seriam decorrentes da minha ausência. Que trágico seria isso tudo. Eu os amo tanto. Não posso falhar com eles.

Brincando com o Alexandre eu percebo que, afinal, seus sorrisos ainda me arrancam sorrisos, e que, apesar de tudo, o céu ainda é azul e as plantas continuam a florescer. No meu íntimo não há mais reclamações. Havia uma sensação estranha, no fundo, de que ao brincar com o meu filho eu estava perdendo tempo. Que havia coisas mais importantes para eu fazer. Me irritava ter de dar banho, dar comida, etc. Mesmo que o fizesse tão esporadicamente.

E agora, vendo aquela criança viva na minha frente, não consigo deixar de lembrar do seu irmão, que se parecia tanto com ele. O seu irmão que eu ninei gelado e morto nos meus braços enquanto rezava que me ouvisse no além.

Percebo a benção que é ter meu filho vivo na banheira para banhar, e aconchegado e quente nos braços para eu ninar.

Olho novamente para o meu filho, do outro lado do rio que todos iremos atravessar. Ele continua a me olhar com essa inocência muda de um filho que ama o pai, antes de haver sido afagado, cuidado, instruído e advertido por esse pai. É um olhar que antecede a todas essas experiências, e é por isso que é tão inocente e também tão puro.

Ainda não é hora de me juntar a você, filhinho. Tenho seus irmãos e sua mãe para eu cuidar. Há uma obra a ser escrita e pessoas a serem educadas. Seu pai, afinal, é professor e tem obrigações de professor.

Você estará sempre com a gente.

Faremos um santuário e traremos presentes para você. Nós não iremos te superar. Ficaremos com você.

Vou fazer algo de valor em sua homenagem, filho, para que nada tenha sido em vão.

Agora meu coração está em paz.

Sei o que devo fazer.

Parte 03 —

Velório

Observo o seu rosto lateralmente, e não há dúvidas: parece que você dorme. Mas eu sei que não irá acordar.

Nós havíamos lhe montado um pequeno quarto branco, e adornamos o seu pequeno berço com almofadas, leões e ursinhos. E então velaríamos, pela madrugada, o seu sono, meu pequenininho.

Eu nunca imaginaria que, ao invés, haveria um caixãozinho, forrado com flores brancas, adornado com velas.E que o seu sono seguiria ininterrupto, e seriamos nós a soluçar e chorar à luz do dia.

Percebo que atrás do seu caixão há uma estátua de Jesus Cristo preso à cruz. E sempre que te olho, percebo, no fundo, uma cruz luminosa pairando acima de ti. E essa imagem me enche de sensação, como se estivesse a falar comigo.

O caixão sextavado é o símbolo de uma vida selada, depois de ter sido vivida por completo. E ali jaz a sua vida selada, mesmo tendo sido tão breve. Esse foi o destino que lhe coube, como homem, meu filho.

É também o destino que me coube, como pai, de colocar as moedas sobre os seus olhos, e selar o seu caixão com a tampa.

O velório termina para todos, mas não para mim. É preciso que eu te acompanhe até o crematório. É preciso que eu garanta que o seu corpinho chegará até onde deve chegar, em segurança e sem erros.

Estando tão ocupado com a morte, me surpreendo de olhar a paisagem e encontrar, ao meu redor, a grama, as árvores e as flores vicejando. A luz do sol irradia e chama todas as formas à vida. Tudo isso me enche de espanto e inunda minha alma de beleza, mesmo naquela hora de profundo pesar. E eu me lembro que o horizonte da vida está circunscrito pela luz e pela sombra. Mas que a beleza não se opõe à dor.

A viagem até o crematório é longa e dura, mas traz um estranho conforto de saber que ainda estou contigo, de que ainda estamos juntos, pois estou fazendo coisas para você. Percebo agora, que estou alegre em estar fazendo essas coisas. Pois assim continuo a lhe servir, na condição de pai.

Então nós finalmente chegamos ao crematório, que fica sobre um monte onde há um jardim, cercado por árvore e flores e de onde se vê uma abóboda celestial de um azul profundo e escuro, com um vasto horizonte em que o céu e a terra se unem formando uma linha, que minha vista não é capaz de abarcar por completo.

No centro dessa paisagem faço repousar seu caixão.

Já cumpri meus deveres práticos, é preciso que eu volte para casa. Mas eu não quero sair dali. Eu volto para o carro à contragosto, e uma sensação de vazio começa a tomar conta de mim. A necessidade pelos meus cuidados começa a chegar ao fim, e isso me angustia terrivelmente.

No caminho de volta, eu e meu amigo conversamos e isso me distrai um pouco de tudo. Mas a imagem do seu pequeno caixão, o vasto horizonte, o céu e a terra, o símbolo da cruz não param de voltar-me à mente. Eu não consigo compreender totalmente o significado disso tudo. Mas sei que essa compreensão virá depois.

Quando chego em casa encontro a sua mãe, meu filho. Digo a ela que não queria deixar lá o seu caixãozinho e que doeu deixá-lo lá sozinho. O nosso pequenininho.

Ela me diz que não era mais ele quem estava lá. E que ao fechar os olhos, ela o via, do outro lado do rio, usando a roupinha que lhe compramos. Sorrindo para nós.

Então, eu me lembro da promessa que fizemos. Percebo que a sua falta irá doer, e que contaremos que idade ele teria, à medida que os anos forem passando.

Viveremos nossa vida, sofreremos e choraremos. Mas nos lembraremos da promessa. Que nos colocará em movimento para a vida, celebrando a sua presença em nossa família.

A imagem do seu pequeno caixão ressurge diante de mim sobreposta a esse vasto horizonte, com o céu em cima e a terra embaixo; e então eu percebo que se trata do centro de uma cruz, e que é a sua vida que jaz selada, ali no centro.

E eu também estou aqui, no centro da cruz, e a minha vida se dá nesse espaço, onde as possibilidades eternas do céu se encontram com as possibilidades latentes da terra, num horizonte em que conhecerei alegrias e pesares, belezas e feiuras; a maldade, mas também a bondade.

A minha existência se dá nesse ponto de encontro de tudo. E eu me espanto de perceber que essa cruz é na verdade a grande moldura da vida humana. E que a minha existência ainda não foi selada.

Ela segue.