Locus Scriptorum
Filosofia

Os 12 trabalhos de Héracles

45 min · junho 16, 2026

uma leitura do seu simbolismo psicológico

Os 12 trabalhos de Héracles –

Uma jornada do caos para a ordem

Héracles é aquele gênero de herói que carrega em si uma centelha divina em um corpo repleto de caos e confusão.

Diferentemente de Perseu, herói nascido em condições mais nobres e favoráveis à vitória do Espírito, Héracles é o herói tosco — o ogro legal — que deseja o bem, mas faz o mal. É o camarada ferrado que deseja ascender e melhorar.

Héracles é filho de Zeus, o princípio de criação da ordem e da organização do universo, com Alcmena, uma mulher nobre e mortal. Héracles é o indivíduo que ama o divino e a ordem. É o indivíduo dotado de uma grande força e potência interior — o típico jovem que falam que “tem muito potencial”, mas que acaba desgraçando a própria vida — pois sua alma se encontra em estado caótico: sua imaginação repleta de referências podres, desejos desarrazoados, comportamentos desajustados.

Héracles inclusive tenta casar-se e ter uma vida normal. Mas o seu caos interior faz com que ele olhe para essa vida como uma prisão e veja sua esposa e seus filhos como monstros. Em sua loucura, ele acaba matando-os. Essa representação simbólica pode ser traduzida para uma situação, por exemplo, de uma pessoa que se casa, mas não suporta estar casada, e que acaba sabotando e arruinando o próprio casamento.

Essa é também a mesma pessoa que depois se arrepende e que sente sinceramente que gostaria de ter feito melhor, embora seja incapaz de fazê-lo. Porque ele é isso: ama o bem, deseja a ordem, mas é tragado de modo implacável para o mal, devido ao seu próprio caos interior.

Mas o seu destino não é terminar os seus dias na lama. Héracles significa “para a glória de Hera”. Nomen est omen — a ideia de que o seu nome contém um presságio sobre o seu destino se aplica bem aqui. Héracles está fadado a estabelecer a ordem na sua própria alma, simbolizada aí pela deusa Hera, que aparece nesse mito como símbolo da ordem interior que ele busca e que lhe impõe provações.

Aqui os 12 trabalhos aparecem como uma jornada espiritual para vencer os vícios arraigados na alma do herói, conquistar as virtudes e efetivamente instaurar a ordem na psique.

O número 12 também tem aqui um caráter simbólico. O número 12 resulta da combinação dos 4 elementos (água, fogo, terra e água) que preenchem o ESPAÇO com as 3 etapas (início, culminação e término/transmutação) que dão o ritmo do TEMPO. É por isso que o 12 aparece no número total de notas musicais, de divisões do espaço, de signos do zodíaco, de meses do ano, etc. Representa a totalidade das direções possíveis, a soma total das etapas de um ciclo.

Na história de Héracles, os 12 trabalhos são um itinerário de formação da personalidade. O caráter simbólico do 12 nessa história está em que representam um ciclo completo sobre a totalidade da personalidade humana. Completar os 12 trabalhos significa perfazer a própria alma.

  1. O leão de Neméia — fortaleza e soberania

Experiência Mítica

A experiência mítica se dá em uma esfera onírica, onde as situações enfrentadas, as ações e emoções reais são transfiguradas em imagens fantásticas.

Imagine-se por um momento, como num sonho, como sendo o próprio Héracles prestes enfrentar o Leão de Neméia.

Você está prestes a se confrontar com uma força feroz, hostil e invulnerável. Essa força o quer devorar e destruir. Você adentra o seu covil, cercado de ossos de homens que tentaram e falharam. “Eles falharam porque foram dominados e recuaram” é o que você pensa. Não será o seu caso. Você é um herói, e a sua intenção sempre o leva a mover-se para frente. Você não recua, você contorna. Você encontra um caminho.

A criatura surge diante de você em toda a sua majestade. Seus olhos ardentes por cortar-lhe a carne, os dentes pontiagudos, as garras afiadas. Os músculos retesados prestes a explodir em um ataque.

Você dispara flechas, mas as observa ricochetearem e caírem por terra. A fera salta em sua direção, mas você esquiva lateralmente, saca a sua espada e dispara-lhe um corte no flanco. Mais uma vez você vê sua lâmina ricochetear: é como se tentasse lacerar uma parede de aço. A besta continua tão inteira quanto antes.

Se você fosse um homem comum, talvez se dispusesse a fugir apavorado. Mas você só pode seguir adiante.

Você se atraca com a besta num combate corpo-a-corpo. Abraçado com a fera, você sente uma verdadeira montanha de músculos se movendo debaixo do seu corpo. “Esse leão é deveras uma força incrível”; você se agarra ainda mais a ela, buscando uma região que seus braços sejam capazes de envolver completamente, você encontra seu pescoço. Você entrelaça seus braços em uma chave e percebe que o fluxo de ar que inflava a criatura cessa de fluir. Você sente a criatura se contorcer em espasmos enquanto você se agarra de maneira cada vez mais firme ao seu corpo. Você sente cada um dos seus próprios músculos retesados e envolvidos com o trabalho de subjugar a fera. Finalmente, você sente sua força esvair. Sua potência reduzida à imobilidade inerte.

No momento seguinte você emerge vestido com a pele desse leão.

Ao confrontar-se com a hostilidade invulnerável, você se tornou a si mesmo invulnerável. Você não é mais uma criança frágil. A sua espinha é firme e a sua casca grossa. Não importa a ferocidade do confronto ou o desconforto da tarefa, você é a pessoa que abraça o desconforto. Você é agora um homem com pele de leão. A dor e o desconforto não têm a palavra final sobre as suas decisões. Você é soberano. A sua intenção sempre o leva a mover-se para frente. Você não recua, você contorna. Você encontra um caminho.

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Leitura Simbólica

O leão é um símbolo multifacetado, com valências benéficas e maléficas. Sendo o topo da cadeia alimentar, é tipicamente associado ao rei, símbolo de soberania. Soberania significa que é você quem determina, não quem é determinado; significa que a última palavra na tomada de decisão é sua, e de mais ninguém. No entanto, essa soberania pode estar orientada a finalidades muito diferentes. Por isso o leão presta-se a ser um símbolo da imposição e da tirania, mas também pode representar a força, a coragem e a nobreza majestosas. Em todo o caso, sendo benévolo ou malévolo, é ele quem decide o que fazer.

O confronto com o leão de Neméia representa o confronto com a hostilidade e a indiferença do mundo, essa exterioridade dolente e feroz. Os desafios que a vida nos impõe são desconfortáveis e terríveis.

A hostilidade do leão é como a hostilidade do mundo. Trata-se de uma arena devoradora de homens. Adentrar essa arena significa ser atacado, machucado e eventualmente destruído.

Como se isso não fosse o bastante, trata-se ainda de uma criatura invulnerável. As flechadas e estocadas do herói ao atingir sua pele, ricocheteiam e não são capazes de lhe afetar. Assim é o mundo, uma arena em tudo feroz e hostil e ainda invulnerável. Você não é capaz de penetrar-lhe a malha.

Não se vence a aversão à dor e ao desconforto afastando-se dela e atacando-a de longe, mas abraçando-se com ela. É abraçando e sufocando o leão que Héracles o vence. É abraçando o desconforto, e aceitando que a experiência nesse mundo é permeada de dor e desconforto, é que se é capaz de subjugá-la. É aceitando e abraçando o desconforto que você se torna forte, não no sentido de produzir força, mas no sentido da resistência e fortaleza.

A vitória sobre o leão de Neméia significa vencer a aversão que nos causa o confronto com mundo. Significa abraçar a dor e o desconforto e tornar-se um casca grossa. A dor e o desconforto deixam de ter a palavra final sobre as nossas decisões. Tornamo-nos soberanos.

2

A Hidra de Lerna

Extirpando os vícios arraigados no corpo.

Monstro que habita o pântano, cresce na estagnação e se alimenta do lodo e da sujeira. Serpente monstruosa de sete ou nove cabeças que crescem de novo à medida que são decepadas.

A Hidra e sua multiplicidade de cabeças representam os múltiplos vícios. Os vícios crescem na estagnação da alma e se alimentam da imundície que deixamos acumular-se ali. Aqueles estímulos torpes que consentimos em consumir — ou aqueles comportamentos degradantes que consentimos praticar para ganhar, de modo imediato, aquela sensação prazerosa no final — vão se acumulando e montando um circuito neural que tem vida própria. Essa estrutura irá exigir que você continue a nutri-la e alimentá-la. O viciado é um escravo desse monstro.

No enfrentamento da hidra, Héracles depara-se com esse problema: ao cortar uma de suas cabeças elas voltam a crescer. Suas vitórias são todas vãs.

É exatamente o problema do homem acometido de um vício: quando ele tenta colocar limites no seu comportamento (cortar uma cabeça), as ânsias brotam com força redobrada e o vício renasce mais forte.

Assim como a hidra, os vícios arraigados em nossa neurologia parecem um monstro invencível.

Para vencê-la, Héracles, além do cortar fora as cabeças, também teve de queimar o local com uma chama. O fogo é aqui um símbolo de dupla significação. Por um lado, representa que, além de colocar um limite ao comportamento, o herói sela aquele limite com o fogo. Por outro lado, o fogo está relacionado às práticas ascéticas que o herói precisa incorporar para ser vitorioso. Ele sabe que não basta suprimir os comportamentos viciosos, mas que aqueles limites precisam ser consolidados e selados, para que o vício não volte a crescer.

O viciado é alguém que coloca o prazer acima de tudo e procura excluir a dor e o desconforto físico da própria vida.

Existe aqui um insight sobre a natureza e a dinâmica do prazer que pode ser útil a quem se veja prisioneiro da Hidra.

Como em muitos outros campos, a nossa experiência muitas vezes se define pelo contraste.

Mergulhar na água gelada é prazeroso, ou aversivo?

Caso você tenha feito uma corrida de 30 minutos debaixo do sol, irá descobrir o quanto um banho gelado pode ser prazeroso.

Atividade física de intensidade moderada é desconfortável? Sim, mas o instante seguinte é de um prazer imenso.

Porque o prazer consiste em ser um alívio. Sem uma carga de dor e desconfortos não há do que se aliviar.

O ser humano não foi feito para ter uma vida tão confortável como nós temos ou como muitas vezes aspiramos ter. O desconforto não apenas lhe fortalece, mas também realça a força dos menores prazeres e tempera a nossa vida.

O sujeito que opta pela prevalência do prazer descobre-se cada vez mais insatisfeito com as suas experiências de gozo e se põe em busca de gozos mais radicais, violentos e perversos.

A exclusão do desconforto cobra um preço muito alto à sua alma.

Os vícios brotam e a vida se torna tanto mais insípida quanto mais se busca a prevalência do prazer.

Incorporar o fogo na luta contra a Hidra é um símbolo da incorporação do ascetismo no combate contra o vício. É uma opção voluntária pela dor e pelo desconforto. Essa é a chave da vitória sobre a Hidra.

Isso não só lhe dá somente a virtude da temperança, como também dá tempero e cor à sua vida.

Demita o hedonista que há em você e dê um lugar ao desconforto na sua vida.

Existe aqui uma mudança de visão de mundo e de ideal de vida que diferencia o hedonista do temperante. Toda a questão gira em torno da estabilidade afetiva.

O hedonista precisa de muitos estímulos de prazer para ter estabilidade afetiva. O temperante busca uma condição em que consegue manter-se estável com o mínimo necessário de estímulos.

3

Corça Cerineia

Conquistando um controle delicado sobre as coisas, mas que não é desprovido de firmeza. Adquirindo uma habilidade de alto nível.

Características do animal

A corça Cerineia é essencialmente um símbolo feminino. Animal sublime consagrado a Ártemis, deusa da natureza selvagem — a um só tempo aquela que conduz aos caminhos da castidade e que barra os caminhos da volúpia. Por isso era a deusa que presidia o primeiro ciclo da educação Espartana, a Agogé. Uma espécie de culto à perícia, precisão e habilidade.

Animal esplêndido de cornos de ouro que se caracteriza pela sua delicadeza e velocidade, embora possua os pés de bronze, chegando mesmo a frequentar o país dos hiperbóreos, lugar mítico, espécie de paraíso remoto, não definido geograficamente, lugar de recreio para bem-aventurados.

A nobreza do animal e sua filiação sublime revelam que aqui Héracles não está lutando para superar uma falta ou dominar um instinto animalesco, mas pra conquistar um dom elevado, conectado às esferas superiores.

A corça simboliza uma qualidade de alma oposta à atividade violenta: a sensibilidade sublime.

Essa sensibilidade sublime tem duas facetas:

1> uma subjetiva, relacionada ao controle do nosso próprio corpo

2> e outra objetiva, relacionada à interação com o ambiente.

1>

Está associada ao controle motor fino e à capacidade de ter precisão na execução do movimento.

Vemos isso no desenvolvimento de qualquer habilidade: quando somos principiantes fazemos muito esforço e somos desajeitados.

Quando nos tornamos peritos, nosso movimento é sem esforço e preciso. É delicado e firme. A firmeza tem relação com os pés de bronze, os quais indicam que essa sensibilidade sublime (corça), embora oposta à violência, possui um vigor isento de qualquer fraqueza sentimental. Existe ali uma força da alma.

2>

Também quando somos principiantes, nossa ação muitas vezes atua contra as tendências do objeto com que estamos lidando. À medida que nos tornamos hábeis e competentes, adquirimos um tato especial, uma capacidade de leitura das pessoas, objetos e situações. Lutamos menos contra elas.

Isso fica especialmente evidente nessa imagem que mostra um pescador muito habilidoso e experiente que consegue se manter calmo e tranquilo enquanto pesca em meio a um mar agitado e revolto.

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A conquista desse grau de perícia em uma habilidade está relacionada, na esfera neurológica, a uma estrutura de grande complexidade e versatilidade. Algo que nenhum animal é passível de adquirir, motivo pelo qual o mito relaciona essa conquista às esferas elevadas e sublimes.

A CAÇADA

A caça à corça simboliza a perseguição à sabedoria.

Porém a palavra sabedoria tem aqui um significado mais amplo. Originalmente o termo, derivado do latim “sapio” (discernir a partir da degustação/provar), aludia a uma pessoa que tinha um discernimento afiado, tal como o degustador profissional de vinho ou cerveja, que numa breve provada consegue distinguir e dizer diversas nuances de sabor presentes na bebida.

Essa sabedoria se encontra representada nos chifres de ouro que adornam a cabeça da corça. O ouro evoca o sol e toda a sua simbólica de luz-conhecimento-brilho, representando o discernimento adquirido: daquela cabeça emana a luz que torna as coisas evidentes.

Na Grécia antiga a palavra sábio (sophos) era inicialmente associada à competência e habilidade, de maneira geral. Um bom sapateiro, um escultor perito ou um competente general de guerra eram todos “sophos”.

Havia uma sabedoria ali que se traduzia de modo evidente na competência demonstrada pelo sujeito. Ainda pensamos assim: “Quem sabe faz ao vivo.” “Não aceite conselhos de quem não mostra resultados”. Apenas depois essa palavra veio a adquirir um sentido mais restrito e “teórico”.

A caça à corsa é a busca por tornar-se um sophos: pessoa competente e perita. A imagem da longa caçada representa a paciência e a dificuldade do esforço a realizar a fim de se alcançar essa sabedoria, essa sutileza de percepção e firmeza de execução.

Héracles só consegue capturar a corsa, com muito custo, após um longo tempo. Foi um dos trabalhos mais custosos e difíceis que teve de executar.

Ele tem êxito atirando uma flecha que a atinge entre o osso e o tendão, sem derramar uma só gota de sangue.

O fato de Héracles ter capturado a corça com uma flechada tão precisa em seus pés significa que nos apropriamos dessa capacidade buscando a precisão do foco e do pensamento.

A flecha que atinge os pés (símbolo da alma na mitologia grega) mostra uma conexão da atenção e do pensamento com a atividade da alma: é o indivíduo que se torna capaz de dirigir o curso da sua ação com seu pensamento.

Em suma, a caça à Corça Cerineia representa a busca pela sensibilidade sublime; busca por precisão e firmeza a fim de desenvolver uma habilidade de alto nível.

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4 — O Javali de Erimanto

Dominando o desejo impulsivo

Porco selvagem que devasta a localidade em que habita. Animal primitivo, forte e desenfreado que reside no seio do território selvagem, mas que se encontra fora de controle, devastando todo o local.

O Javali representa a nossa faceta mais primitiva e instintiva relacionada à faculdade apetitiva e concupiscente. O porco é símbolo de tendências obscuras: gula, luxúria e egoísmo. O porco tira seu prazer da lama e do esterco. (Percebam a conexão com os trabalhos anteriores)

Capturar o porco selvagem significa que a aquisição do domínio sobre a impulsividade concupiscente. Quando desejamos algo, nos movemos em direção ao nosso objeto de desejo. Isso porque o apetite tem duas valências: por um lado é devido ao apetite que desejamos algo, e também é devido ao apetite que nos movemos em direção a esse algo para frui-lo e nos apossarmos dele.

O interessante aqui é que Héracles captura o porco selvagem quando, na sua perseguição, o conduz para um território gelado onde o porco, por não conseguir firmar os pés no gelo, acaba retardando a sua marcha sendo capturado pelo herói.

Aqui ainda estamos dentro da temática das práticas ascéticas que, criando um território desfavorável para o porco selvagem, favorece que o herói o capture, ou seja que assuma o controle sobre os seus desejos e impulsos concupiscentes.

Perceba que não se domina a impulsividade sem antes criar condições desfavoráveis para que tenha onde “firmar o pé”. Algo de análogo aparece na nossa linguagem quando falamos que alguém precisa “esfriar a cabeça”, porque quando o arroubo caloroso da impulsividade nos arrasta para uma ação, precisamos parar, respirar fundo e esfriar, para de certa forma recobrar o controle sobre nós mesmos.

Quando uma pessoa sente um arroubo de impulsividade, para comer uma comida por exemplo, se ela se deixar levar por esse impulso irá deglutir a comida com grande ânsia. O ato de recobrar o controle sobre si está associado a um resfriamento: parar e respirar fundo.

A captura do porco selvagem é, por isso, um símbolo do autodomínio e da temperança.

5 — As cavalariças de Áugias

Cultivando um estado de atenção e presença.

Abertura ao fluxo da vida.

Pondo seu espaço pessoal em ordem.

Héracles recebe a tarefa ingrata de limpar as cavalariças de Áugias, rei desatento que jamais limpou os próprios estábulos, permitindo que ali se acumulasse um oceano de excremento. O mito conta que havia tanta bosta ali, que seriam precisos muito e muitos anos para limpá-lo. Era uma tarefa virtualmente impossível de ser cumprida por um único indivíduo,

Os estábulos simbolizam o subconsciente que, devido à presença de uma consciência desatenta e negligente — o rei -, tornou-se um repositório das piores ideias, frases, imagens, músicas, referências e hábitos. Tudo que é porcaria vai se acumulando ali resultando em uma imaginação repleta de lixo.

O lodo dos estábulos são um símbolo análogo ao pântano em que vivia a Hidra. Simbolicamente, é do tipo de ambiente criado nos estábulos que nutre e alimenta a Hidra.

Héracles sabe que é impossível limpar os estábulos manualmente. Nem mesmo sua força seria de ajuda aqui.

Ele então faz com que o rio Alfeu, símbolo da purificação, passe através das cavalariças imundas e leve embora aquele mar de bosta.

O rio é símbolo da fluência da vida, e seus acidentes sinuosos representam os acontecimentos da vida diária.

Lavar os estábulos com o curso do rio significa purificar a alma (subconsciente) da estagnação banal pela atividade vivificante e sensata. Aquele tipo de atividade em que se está presente, vivo e atento.

Assim como os estábulos de Áugias, também é Impossível limpar o seu subconsciente de todo o excremento que foi se acumulando ali ao longo dos anos de passividade e desatenção. Apenas uma consciência viva e atenta, aberta para o fluxo da vida pode arrastar fora a sujeira.

E por que o símbolo “estábulos sujos”? Porque quem está atento e cuida, trata de limpar e pôr em ordem. Um procedimento comum nas escolas de artes marciais é que os próprios praticantes cuidem do recinto marcial, não para que o mestre fique isento de pagar uma faxineira, mas para que exercitem a consciência atenta e cuidadora.

O idiota, no sentido etimológico do termo, é uma pessoa fechada nela mesma. O perspicaz é aberto para o fluxo dos acontecimentos.

A consciência atenta e viva é como um rio caudaloso: sempre fluindo, sempre se renovando.

A pessoa desatenta e descuidada é como um fosso fechado em si mesmo, ocupado em acumular e repisar imagens e sensações.

Por todos esses motivos, esse trabalho representa a conquista da presença de espírito: estar atento à vida, ao fluxo dos acontecimentos, à vida real.

6 — Aves do lago Estínfalo

Libertando-se das ideias artificiosas e fantasias insensatas.

Os pássaros de bronze que ofuscam o brilho do sol com seu voo, atiram penas de bronze e devastam a região em que habitam.

Essas aves artificiais e destrutivas simbolizam ideias artificiais, que ofuscam o brilho da inteligência intuitiva (o conhecimento auto-evidente) e consequentemente impedem o indivíduo de contemplar o mundo pelo que ele é. O indivíduo com a cabeça repleta de ideias artificiais, desconectadas da realidade, sobrepõe à percepção direta e óbvia das coisas as narrativas, ideias ideologias, e movido por elas produz caos e destruição na sua circunstância particular.

Hércules combate as aves disparando flechas contra elas. As flechas são armas de Apolo, que viajam em linha reta da sua fonte ao seu destino, sendo, portanto, símbolos da luz. As flechas simbolizam aquilo que é capaz de evidenciar e tornam translúcida a realidade das coisas. É por meio delas que o herói é capaz de abater as aves que obscurecem o brilho da inteligência.

As aves só podem ser vencidas com uma arma apolínea, que é a palavra clara e precisa. O signo utilizado de modo racional e reto, como flecha, para referir o cerne da coisa. É a absorção da noção de que o signo é como um dedo apontando para algo de real que existe de fato no mundo, e que se não há referente, não há realidade efetiva.

Esse símbolo encontra eco na alegoria da caverna de Platão em que os homens na caverna são dominados por signos e imagem que não se referem a nada real, estando a realidade das coisas para além daquilo que é referido por aquela comunidade de falantes.

A vitória sobre os pássaros de bronze significa a superação da desconexão entre pensamento abstrato e experiência concreta, com a subsequente superação da condição de ser uma pessoa dominada por ideias ou ideologias artificiosas.

Implica na conquista da capacidade simbolizadora de pensar a realidade por meio de signos e de matar ideias falaciosas com a “luz” da verdade: a agudeza intelectiva que faz a distinção clara entre o verdadeiro e o falso.

O SEGUNDO CICLO DE TRABALHOS

O segundo ciclo dos trabalhos de Héracles.

Héracles agora entra numa nova fase.

Após:

1> ter conquistado a disposição de encarar o desconforto e tornar-se resistente à dor, [Leão]

2> ter extirpado os vícios, [Hidra]

3> e conquistado uma habilidade de alto nível, [Corça Cirinita]

4> Ter aprendido a se dominar em situações de impulsividade concupiscente [Javali de Erimanto]

5> ter tornado-se atento, presente e aberto ao mundo, [Estábulos de Áugias]

6> ter extirpado fantasias e ideias irreais, [Pássaros do Lago Estínfalo]

Héracles teve vitórias no âmbito privado/pessoal e agora deve se confrontar com o mundo e alcançar vitórias públicas.

Tendo estabelecido ordem sobre o seu espaço interno e subjetivo, Héracles não é mais um obstáculo para si mesmo, tornando-se mais apto a agir sobre o mundo com eficiência. Ao tornar-se capaz de SE dominar, ele tem agora a possibilidade de projetar o seu poder sobre o mundo e dominar os outros.

Tendo se transformado em uma pessoa dotada de um poder real, ele corre agora o risco de ser levado pela prepotência e pelo desejo de subjugar e tiranizar outras pessoas.

Se no ciclo anterior ele era um homem governado pelo princípio do prazer (Freud), aqui, no início do segundo ciclo, ele se torna um homem governado pelo desejo de poder (Alfred Adler).

É contra esse gênero de vícios que veremos Héracles batalhar no início dessa nova fase.

7- Touro de Creta

Alcançar o domínio sobre a própria agressividade.

Direcionando o impulso de fazer para pôr-se a serviço.

O próximo trabalho de Héracles é capturar o Touro de Creta.

O touro simboliza o ímpeto agressivo de destruir e dominar.

Na tradição grega, os touros — animais altivos, de ardor indomável — simbolizavam o desencadeamento sem freios da violência.

São animais consagrados a Poseidon, deus dos oceanos e das tempestades.

Dominá-lo significa dominar a sua impetuosidade e a sua força e colocá-la subordinada à sua vontade e a serviço do mundo.

O touro de Creta, animal esplêndido e sagrado (assim como o poder é esplêndido), havia sido dado ao rei Minos por Posseidon para que fosse a ele novamente sacrificado. No entanto, o rei, no seu fascínio pela criatura, opta por esconder o touro e sacrificar outro bovino. O erro de sua decisão leva a consequências desastrosas. Sua esposa Pasífae apaixona-se pelo touro e tem com ele um filho: o Minotauro. O rei Minos, envergonhado com isso, com a ajuda de Dédalo constrói um enorme labirinto para dentro dele esconder o Minotauro. Depois disso impõe aos atenienses condições de paz tirânicas: deveriam enviar 7 homens e 7 mulheres periodicamente para serem devorados pelo Minotauro.

A tradução simbólica é que o rei Minos e Pasífae são dois aspectos da mesma pessoa:

o rei simboliza aquela parte do psiquismo envolvida com o ato de deliberar e decidir, enquanto a rainha, por outro lado, simboliza aquela parte do psiquismo relacionada ao desejo e as suas inclinações afetivas.

A decisão de manter o touro, ao invés de sacrificá-lo — ou seja colocá-lo a serviço de um bem comum — faz com que o indivíduo se afeiçoe ao poder dominador e tenha com ele um filho. Esse filho — o Minotauro devorador de homens — é um símbolo da imposição de uma ordem tirânica, que tem no centro do seu governo um homem apaixonado por sua própria potência. Uma paz tirânica que se mantém à custa do sacrifício contínuo de inocentes.

O ato seguinte do rei Minos é extremamente significativo: o recurso a Dédalo para arquitetar o labirinto. O labirinto é uma justificação, um raciocínio emaranhado e mentiroso construído por um intelecto engenhoso para esconder as intenções monstruosas e tirânicas do rei devorador de homens.

As linhas gerais do drama são essas, e podem manifestar-se em dois planos.

Podemos vê-la passar-se no seio de um único indivíduo.

Ou podemos vê-la ganhar palco na nossa própria sociedade.

A imagem do touro que deveria ser sacrificado significa que aquele grande poder e capacidade deveria ser colocado a serviço dos deuses, ou seja, deveria ser usado para desempenhar o papel que lhe é devido no grande concerto cósmico do mundo e da sociedade.

Mas ao invés disso, o tirano nega-se a colocar o seu dom à serviço. Ele usa e retém o poder para seu próprio gozo, e desse conúbio entre a alma e o poder nasce uma monstruosidade: o Minotauro devorador de homens, símbolo máximo do governo tirânico protegido por uma construção labiríntica de justificativas absurdas e raciocínios falsos para que se perpetue o governo que devora homens para regozijo do seu tirano.

O indivíduo dominado pelo princípio do prazer sequer consegue imaginar o que seja confrontar esse desafio.

Nesse sétimo trabalho, vemos que Héracles, como Minos, se apossa do touro, monta-o e ainda faz dele uso, como montaria, para atravessar o mar, símbolo da vida. Navegar, ou atravessar a vida montado no touro significa que o herói atravessa a vida no domínio da sua impetuosidade. No entanto, diferentemente do rei Minos, ele o entrega ao rei Eristeu, cumprindo com a tarefa que lhe foi incumbida pelos deuses.

Isso significa que o indivíduo domina a sua impetuosidade, apropria-se do poder que lhe foi investido e o põe a serviço do mundo.

8- As éguas antropófagas de Diomedes

Vencendo a hostilidade para com os outros e tornando-se hospitaleiro.

As éguas devoradoras de homens pertenciam ao rei Diomedes, filho de Ares (deus da guerra). Diomedes era famoso por capturar os estrangeiros e jogá-los nos estábulos para serem traçados pelas éguas. Ao agir dessa maneira Diomedes violava as leis de Zeus que exigia hospitalidade com os visitantes. O mito narra que as éguas, de tal forma, haviam adquirido gosto por carne humana que não mais comiam qualquer outro cereal.

Aqui temos um reino fechado em si mesmo e que se recusa a ser hospitaleiro com o próximo. A consciência fechada em si mesma e que recusa a hospitalidade é um centro gerador de hostilidade e perversidade.

Ser governado pelo filho de Ares significa ver o mundo como um grande palco de guerra, repleto de intenções maliciosas, sem possibilidade de bem nos elementos estranhos e forasteiros.

De onde vem a postura fechada e hostil? Geralmente ela nasce de alguma agressão sofrida (real ou imaginada), e a hostilidade, inicialmente uma postura defensiva eventualmente torna-se uma postura ativa e maliciosa, pois é essencialmente ressentimento em ato. Depois de um tempo, a sua consciência fechada em sua disposição agressiva toma gosto pela hostilidade, e sente-se justificada ao agir assim, pois o mundo é mau. Nesse processo você não se percebe como um agente que inflige sofrimento. Não percebe o próprio deleite com o sofrimento alheio. Não se percebe tirânico.

A hospitalidade pressupõe uma visão de mundo em que existe a possibilidade do bem e de pessoas bem-intencionadas. Não é uma abertura total e ingênua, mas apenas uma disponibilidade amistosa para com o que vem de fora.

As éguas não são originalmente monstros. Os equinos, na mitologia grega, são símbolos da grande vitalidade fisiológica inerente à nossa animalidade. No entanto, o mito deixa claro que essas éguas adquiriram um gosto pela carne humana porque foram habituadas a isso. O feminino aí nos sinaliza que se trata da disposição afetiva. o que indica que existe aí um instinto natural que foi pervertido e que agora precisa se alimentar disso: tornou-se sedento por fazer o mal.

Após vencer Diomedes, Héracles o agarra e atira para ser devorado por suas próprias éguas. É o confronto da consciência com a sua própria maldade que põe abaixo a disposição tirânica.

Depois de alimentadas as éguas, Héracles as doma e leva no seu navio até Micenas. Ao serem entregues ao rei Euristeu, as éguas são consagradas à deusa Hera, tornando-se mais calmas. Apenas quando o apetite é consagrado novamente à ordem é que a alma pode ser pacificada.

9- Cinto de Hipólita, rainha das amazonas.

Abertura para a compartilhar a intimidade com outra pessoa.

Tornar-se capaz de uma vida a dois.

Neste trabalho Héracles deve obter o cinto de Hipólita, rainha das Amazonas.

Para cumprir sua tarefa , Héracles recorre à persuasão. Ele explica a Hipólita que ele foi incumbido pelos deuses com a tarefa de pegar seu cinto e dá-lo ao rei Euristeu.

Hipólita se convence! Ela não quer contrariar o desígnio dos deuses e prontamente se dispõe a ceder o cinto a Héracles. Mas o corpo das Amazonas atrás de si reage com hostilidade e o ataca. Héracles e sua tripulação então combatem e vencem-nas.

Ele então leva consigo o cinto.

As Amazonas são mulheres masculinas e guerreiras que governam a si próprias, unem-se somente a estrangeiros e só criam as filhas, cegando ou mutilando os filhos.

O cinto de Hipólita ter-lhe-ia sido dado por Ares.

O cinto é uma peça de vestuário que se fecha em torno de si, representando um compromisso assumido pela sua portadora. O cinto veda o acesso à região do baixo ventre. É um símbolo de castidade e fecundidade.

Vestir o cinto significa manter-se casta, desatar o cinto significa abrir-se ao casamento e à fecundidade. Cabe ao marido desatar esse nó.

O fato de o cinto ter sido dado pelo Deus da guerra indica a natureza da castidade assumida pela amazona.

Na mitologia grega as Amazonas simbolizam as mulheres hostis aos homens, que desejam tomar o lugar do homem e destrui-lo ao invés de completá-lo.

Essa rivalidade esgota a força essencial própria da mulher, sua qualidade de amante e cuidadora, tornando-a numa mulher viril e masculina, incapaz de oferecer amor e aconchego.

Dar o cinto significa renunciar à hostilidade e à guerra contra os homens. Significa abrir-se à união harmônica entre os sexos.

Hipólita entende que renunciar à sua hostilidade e abrir-se ao conúbio é agir conforme a ordem transcendente.

Mas as Amazonas não deixam.

Esse acontecimento representa aqueles momentos em que o intelecto toma uma decisão, mas o seu corpo lhe arrasta em outra direção. Não basta a decisão, é preciso vencer as inclinações hostis que arrastam para uma direção contrária.

Derrotar as Amazonas e se apropriar do cinto significa romper com o compromisso de fazer guerra ao sexo oposto. Significa abrir-se à relação harmônica e complementar entre homem e mulher.

10- Bois de Gerião

Tornar-se hábil em lidar com a vaidade, os prazeres e hostilidades.

Tornar-se Soberano.

No seu décimo trabalho Héracles teve de navegar para o extremo ocidente, além do oceano, para a terra mítica de Erítia a fim de se apropriar do gado de Gerião, criatura monstruosa composta por 3 corpos unidos na cintura, suas 3 cabeças ornadas de elmos pesados com 3 escudos resistentes à mais afiada das lanças e dotado de asas artificiais de aspecto monstruoso.

Além disso Gerião tinha em sua companhia um cão de guarda chamado Ortro com duas cabeças, mandíbulas com dentes pontiagudos, e também Êurito, um gigante de força equivalente a Héracles que lhe servia como pastor.

No caminho Héracles depara-se com uma montanha que separava o oceano atlântico do mar Mediterrâneo. O herói abriu o espaço, criando as colunas de Héracles, o nosso estreito de Gibraltar. Para atravessar o vasto oceano e chegar até Erítia, Hercules pede emprestado o barco de Hélio — deus sol.

Separar o espaço entre as montanhas, significa romper com os limites materiais e cotidianos que geralmente impedem o indivíduo de transitar para as regiões mais remotas da sua alma, onde os monstros costumam residir.

A luz é aquilo que torna claras e evidentes as coisas obscuras e ocultas. O Deus sol representa o auxílio de uma pessoa capaz de esclarecer e de iluminar a consciência. Porém seu auxílio a Héracles não é direto: ele lhe fornece um veículo para acessar o cerne da sua alma. A sua participação no mito evidência que a jornada acontece sob os auspícios da luz e do esclarecimento.

A vitória sobre Gerião e seu séquito representam o triunfo sobre as principais perversões que assolam a condição humana.

O pastor de Gerião representa a incontinência (incapacidade de conter-se) e seu cachorro de duas cabeças representa os excessos, que podem conduzir o homem a se exceder tanto para mais, quanto para menos.

Em Gerião nós temos unidos em um único simbolismo as 3 pulsões humanas que psicologicamente levam à corrupção da imaginação e do desejo, levando-a a corromper-se: o apetite (exceder-se na fruição sensorial), a sociabilidade (domínio ou manipulação de outras pessoas) e a espiritualidade (imputar-se mais importante e especial que o restante da humanidade).

As asas evidenciam que essa é uma perversão que assola a imaginação dos homens, incidindo sobre a sua fantasia.

No mito de Gerião temos toda a constelação dos conceitos caros à Ética: vencer o cão de duas cabeças significa não inclinar-se nem ao excesso, nem à falta. Vencer o pastor significa domínio sobre a incontinência: saber conter-se, ter auto-domínio. Isso permite acesso a Gerião, o arroubo pervertido (simbolizado pelo gigante) que estando para além do território consciente influencia e dirige nosso psiquismo para escolhas pervertidas.

Vencer Gerião significa uma vitória essencial sobre as principais perversões que assolam o ser humano. Significa ter triunfado na condição humana e harmonizado os desejos da alma, conquistando a paz de espírito — simbolizada pelos bois luzentes.

Ao contrário do touro, o boi é um símbolo de bondade, de calma, de força pacífica: capacidade de trabalho e sacrifício.

No entanto, o mito deixa claro que esse triunfo é apenas a conquista de um estado passageiro da alma humana, pois na sua descida de volta à vida cotidiana o herói pode voltar a perdê-lo. Isso é aparente nas várias tentativas de roubo dos bois e na luta de Héracles para recuperá-los.

A conquista desse estado de alma requer atenção e vigilância na sua manutenção, pois embora o herói tenha conseguido se instalar na condição humana em um estado de harmonização dos desejos, ele continua vulnerável à ação disruptiva do mundo. Isso fica evidente nos vários assaltos e perdas do gado que ele sofre ao longo do caminho e na luta que empreende para recuperá-los.

11- Colher os Pomos do jardim das Hespérides

Cultivando a inteligência e alcançando o entendimento de verdades luminosas das esferas mais altas.

Em seu 11º trabalho Héracles deveria colher, do jardim em que vivem as Hespérides, — filhas de Atlas e Hésperis -, três pomos de ouro da árvore central.

Para descobrir onde ficava o jardim, Héracles precisou indagar Nereudivindade do mar, esquiva e metamórfica — o único a quem Hera legou o segredo da localização do jardim. Héracles consegue aprisioná-lo e forçá-lo a revelar o segredo, sob pena de nunca mais soltá-lo. Nereu revela então que o jardim fica nos confins do mundo, onde o titã Atlas suporta a abóbada celeste nos ombros. Nereu diz-lhe que jamais irá conseguir colher os pomos, pois o jardim é protegido por Ládon dragão imortal de 100 cabeças que nunca adormece, pois enquanto metade das cabeças dorme, a outra metade permanece vigilante.

O jardim é símbolo do paraíso celeste. É a representação dos estados espirituais que correspondem a vivências paradisíacas e que estão para além dos limites da experiência, eternamente inacessíveis ao ser humano, guardados por Ládon, símbolo da animalidade sempre presente e que nunca adormece, a qual se interpõe a qualquer tentativa de acesso ao mundo transcendente.

Além disso, temos dois símbolos análogos que representam o centro e o eixo. De um lado está a árvore que cresce no centro do jardim, representando um eixo central que liga o céu e a terra, e do outro temos Atlas sustentando a abóbada celeste, também um símbolo de eixo central conectando o céu e a terra.

Do mesmo modo que a coluna é um eixo que ascende ao céu e se finca na terra, também a árvore é um movimento que se expande para os céus e se enraíza na terra. De um lado os princípios e possibilidades transcendentes; do outro a realidade particular e concreta.

Colher os 3 pomos de ouro significa adquirir o conhecimento luminoso e supremo que não tem sua origem na experiência cotidiana, mas que está para além da vida e dos limites do mundo: são o bem, o verdadeiro e o belo. Está na esfera da eternidade, uma região que nenhum homem pode acessar.

O fato de sua localização ser enigmática revela que ninguém sabe como chegar a esse lugar ou acessar esse tipo de vivência.

Quem detém o segredo é Nereu, divindade do mar. Águas em movimento, o mar simboliza um estado transitório entre as possibilidades ainda informes e as realidades configuradasSímbolo da vida cotidiana que, nos oferece situações de ambivalência, incerteza e dúvida, que podem se concluir bem ou mal.

Nereu representa o confronto com a experiência cotidiana, que assim como ele guardam o segredo da localização do jardim das Hespérides. Assim como o mar, a vida cotidiana se manifesta sob milhares de formas, e quando indagada sobre o sentido da vida ou sobre o lugar onde está o conhecimento transcendente, jamais responde com precisão, exprimindo-se apenas por enigmas.

Assim como Héracles aprisiona Nereu, é apenas nos momentos de absoluta quietude, quando a agitação cotidiana é paralisada, quando o homem cessa de ser convulsionado pelas suas transformações, quando se dispõe a manter a quietude indefinidamente é aí que ele encontra o eixo da condição humana: a via de ascensão à contemplação do mundo transcendente.

A periferia do mundo, onde Atlas sustenta a abobada celeste indica a linha horizonte: aquele lugar onde o céu e a terra se tocam. Está nas fronteiras da consciência e do mundo conhecido. Nesse caso Héracles precisa ir até os limites do mundo conhecido para trazer, do outro mundo, um conhecimento transcendente.

Em sua busca pelo local, Héracles acaba encontrando Prometeu, que havia sido aprisionado por Zeus a uma pedra tendo seu fígado comido por uma águia de dia e regenerado à noite. Ao libertar Prometeu, este lhe revela um meio de conseguir os pomos de ouro: recorrer ao próprio Atlas, para que lhos traga, pois o dragão Ládon não atacaria Atlas.

Prometeu representa o logos logistikos, “pensamento que prevê”; aquela parte do intelecto incumbida dos cálculos e avaliações. Prometeu é um Titã, portanto, carrega dentro de si um germe de revolta do mundo material, no sentido de buscar subjugar a inteligência divina, roubar dela suas centelhas e colocá-las a serviço do seu apetite por prazer, poder ou vaidade.

Prometeu, enquanto intelecto que calcula e avalia, é uma capacidade do espírito, mas que não necessariamente busca a espiritualização progressiva de si, mas apenas o aumento do poder pessoal e o sucesso puramente material.

Representa aquele tipo de intelectualidade que, quando canalizada a fins unicamente práticos, deixa o indivíduo preso à materialidade — representada no mito por uma pedra — enquanto é devorado pelo fígado — órgão que simboliza a cólera, a animosidade e as intenções deliberadamente venenosas. Ou seja, sofrendo em consequência das suas ações.

No entendo, essa mesma capacidade representada por Prometeu é aquela que, quando libertada de seus grilhões materialistas, torna-se o engenho que revela o caminho de ascensão celeste, tal como na história de Héracles.

Héracles encontra Átlas e consegue convencê-lo a buscar os pomos de ouro, enquanto sustenta a abóbada celeste em seu lugar.

O céu é a manifestação direta da transcendência e da sacralidade. Daquilo que nenhum vivente da terra é capaz de alcançar pelo simples fato de ser elevado e de encontrar-se em cima.

Ao colocar-se nessa posição ele se torna um eixo entre o céu e a terra.

Para sustentar a abóboda celeste Héracles precisou impulsioná-la para cima com as mãos, e ao mesmo tempo estacar os pés firmemente contra o chão.

A analogia entre o movimento de Héracles e o simbolismo da árvore é praticamente perfeito. Seu gesto coordena um movimento ascendente e outro descendente, exatamente como na árvore que reúne em si um movimento ascendente, em direção às esferas celestes, dos princípios e possibilidades eternas, e outro descendente, em direção à terra, à concretude e particularidade.

O ser humano é essa criatura capaz de colocar-se no eixo do cosmos: inteligir a ordem eterna e transcendente e atuar sobre o mundo contingente.

Ao mesmo tempo que essa capacidade é inacessível e distante da vida cotidiana, ela constitui o cerne — o centro, o eixo — do que é ser humano.

Héracles não pode penetrar diretamente no jardim. Mas por meio de uma ação que simula o movimento vital da árvore do conhecimento: buscando a contemplação das esferas transcendentes, firmemente enraizado na terra, ele pode fazer com que venham até ele os três pomos de ouro: o bem, o belo e o verdadeiro — conhecimento que brota diretamente na árvore do paraíso.

O fato de ele devolver a Atlas o seu posto é importante.

Ele corria o risco de ficar eternamente voltado para a contemplação do mundo transcendente, vendo-se, desse modo, apartado do mundo indefinidamente.

Mas não: Hércules tem uma experiência da dimensão transcendente, colhe os frutos dessa experiência e volta ao mundo cotidiano na posse do conhecimento transcendente do bem, do belo e do verdadeiro.

12- Cérbero

Descida aos porões da alma.

Consciência da própria sombra e suas motivações mesquinhas.

Capacidade de trazê-las à luz e renovar-se.

Em sua última tarefa, Héracles deve descer ao Hades, o mundo dos mortos, e de lá trazer Cérbero. Filho de Tifão e Équidna, cão de 3 cabeças, cauda de dragão e pescoço eriçado de serpentes, Cérbero permitia que as almas penetrassem o Hades, mas não permitia que de lá saíssem.

É extremamente significativo que o penúltimo trabalho, que envolvia um movimento de elevação em direção ao céu para colher os 3 pomos luminosos do paraíso, seja sucedido por um trabalho de descida à escuridão em que se deve domar um cachorro monstruoso de 3 cabeças.

Embora naturalmente o associemos ao inferno, o Hades um lugar muito diferente. É simplesmente o mundo dos mortos. O próprio deus Hades não tem qualquer associação com a figura do Diabo ou Satanás. Ele é apenas o grande administrador desse universo.

Conta a lenda que antes de empreender a viagem, Héracles foi iniciado nos Mistérios de Elêusis. Os Mistérios dizem respeito ao rapto de Perséfone, sua descida ao Hades e seu retorno primaveril. Sua celebração era secreta. Portanto, não há registro de relatos que tenham chegado até nós. Um testemunho de Aristóteles diz “Os que são iniciados não devem aprender algo, mas experimentar emoções e ser levados a certas disposições.”

Talvez o 12º trabalho de Héracles, e a inclusão da sua participação nos Mistérios nesse último trabalho, indique o tipo de vivência proporcionada pelos mistérios de Elêusis.

Jamais Héracles teria sido capaz de realizar tal trabalho se não tivesse contado, por ordem de Zeus, com o auxílio de Atenas e Hermes. Ou seja, daquela que discerne com sabedoria e daquele que não erra os caminhos.

Antes de tomar qualquer iniciativa em relação à captura de Cérbero, Héracles vai ter com Hades para explicá-lo que se trata de um trabalho ordenado pelos deuses e para pedir-lhe autorização. Hades consente que ele capture Cérbero, mas com a condição que o faça sem armas, com as mãos livres. No entanto, nenhuma restrição é feita ao seu manto de leão.

Héracles agarra-se com Cérbero e recebe muitos ferimentos no processo. Não fosse sua capa de leão — sua coragem e resistência –, talvez não fosse possível levar a tarefa a cabo. Mas ele, enfim, consegue domar Cérbero pelo pescoço, prende-o com uma corrente e leva-o imediatamente a Euristeu.

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Adentrar o Hades e visualizar a própria sombra é o mesmo que confrontar as partes da sua personalidade que o seu eu autoconsciente rejeita, mas que ainda tem morada nos umbrais da sua alma.

O que nós fazemos quando nos sentimos oprimidos, ressentidos, invejosos ou amargos? A maioria de nós não gosta de se perceber com essas emoções mesquinhas e intenções maléficas.

Admitimos para nós mesmos o que está se aninhando na nossa alma? Ou mantemos esses sentimentos e desejos na escuridão?

Confessamos a realidade do que vai no nosso peito e a trazemos para a luz do dia? Ou fingimos que não existem?

Cérbero permite que entremos e vejamos as sombras: sabemos que estão lá, mas não confessamos; não queremos admitir. Movidos pelo próprio Cérbero, empurramos essas sombras de volta para nossos abismos.

Enquanto permanecermos fingindo e sem confessar, nossos pecados irão nos assombrar.

Domar Cérbero é vencer novamente a perversão das pulsões fundamentais que, mesmo vencidas no plano da nossa autoconsciência (Gerião), nunca cessam de existir — como o próprio Cérbero. Vivemos em uma tensão permanente com elas.

Para renovar a alma e reestabelecer plenamente a ordem é preciso ser capaz de fazer o movimento de renovação: descer às sombras e trazê-las à luz numa confissão franca e sincera.

Apenas trazendo à luz da consciência aqueles aspectos vergonhosos e feios da nossa alma, aqueles sentimentos e intenções maléficas –que gostaríamos de manter ocultos — é que poderemos reintegrar a ordem da alma.

“Em verdade vos digo que, se não vos converterdes e não vos tornardes como crianças, de modo algum entrareis no reino dos céus. Portanto, aquele que se humilhar como esta criança, esse é o maior no reino dos céus” (Mateus 18:3)

Mitologia