Locus Scriptorum
Ensaios

O Sequestro Artificial da Inteligência Humana

5 min · outubro 13, 2026

O uso que me acostumei a fazer da inteligência artificial foi me afastando cada vez mais, ao longo dos últimos anos, do ofício de escrever.

Em 2021 (não havia IA), fiz um curso de extensão em jornalismo pela Michigan State University e constatei, para minha alegria, a facilidade que eu tinha de pegar um assunto e desenvolver o texto, assim, out of thin air, mesmo em inglês.

Aos poucos isso foi dando espaço a prompts que se convertiam em textos – cada vez melhores ao longo dos últimos anos – que eu me limitava a editar e corrigir, querendo me iludir de que, ao fazer isso, estava ainda, em alguma medida, exercendo o ofício de escrever.

E aos poucos, imperceptivelmente, aquela prontidão verbal foi se apagando. Aquela capacidade de receber o assunto, visualizar a disposição dos blocos, visitar os tópicos para gerar ideias, pesquisar, cuidar do encadeamento lógico, checar as emoções suscitadas… tudo isso foi aos poucos se embaçando, como uma estrada sem uso, que vai sendo invadida pela vegetação.

E o sinal de alarma maior foi a minha constatação de que a prontidão verbal vinha se apagando dentro da minha própria cabeça.

Mas esse foi o menor dos problemas.

Não existe meditação filosófica sem uma mente capaz de traduzir suas experiências vitais em palavras, para articulá-las e elaborá-las. É um exercício de confissão e sinceridade.

Depende de fazermos o caminho do coração para a mente, sem que as palavras proferidas em cima traiam o que vai no peito. Sem que a voz se torne estereotipada e mecânica.

No sexto trabalho de Hércules, vemo-lo enfrentar as aves do lago Estínfalo, pássaros de bronze que ofuscam o brilho do sol com seu voo, atiram penas de bronze e devastam a região em que habitam.

Hércules mata as aves do Estínfalo, Albrecht Dürer, 1500 (detalhe)

Essas aves artificiais e destrutivas simbolizam ideias artificiais, que ofuscam o brilho da inteligência e consequentemente impedem o indivíduo de contemplar o mundo pelo que ele é. O indivíduo com a cabeça repleta de ideias artificiais, desconectadas da realidade, sobrepõe à percepção direta e óbvia das coisas as narrativas, ideias, ideologias e, movido por elas, produz caos e destruição na sua circunstância particular.

As aves só podem ser vencidas com uma arma apolínea, que é a palavra clara e precisa. O signo utilizado de modo racional e reto, como flecha, para referir a essência das coisas. É a absorção da noção de que o signo é como um dedo apontando para algo de real que existe de fato no mundo, e de que, se não há referente, não há realidade efetiva.

Apolo fere Tício com suas flechas, Polignoto, c. 450–440 a.C.

Esse símbolo encontra eco na alegoria da caverna de Platão, em que os homens na caverna são dominados por signos e imagens que não se referem a nada real, estando a realidade das coisas para além daquilo que é referido por aquela comunidade de falantes.

Um teatro de sombras.

A caverna de Platão, Jan Saenredam a partir de Cornelis van Haarlem, 1604

A vitória sobre os pássaros de bronze significa a superação da desconexão entre pensamento abstrato e experiência concreta, com a subsequente superação da condição de ser uma pessoa dominada por ideias ou ideologias artificiosas.

Implica a conquista da capacidade simbolizadora de pensar a realidade por meio de signos e de matar ideias falaciosas com a “luz” da verdade: a agudeza intelectiva que faz a distinção clara entre o verdadeiro e o falso.

Se os movimentos do meu corpo se manifestam pela articulação das partes do meu corpo, os movimentos da minha alma se manifestam pela articulação da minha linguagem.

Uma alma que vai perdendo esse elemento vai se tornando opaca e obtusa.

Pouco a pouco, fui deixando a IA me mimar, me afastando de fazer o caminho entre a mente e o coração, enquanto me enganava de que nada realmente sério estava acontecendo. E a mente começou a se encher de aves de bronze.

Mas não mais.

Não estou dizendo que não usarei mais IA, ou que ela seja um mal absoluto. Seria uma infantilidade. É como diz o Jordan Peterson: ferramentas muito poderosas requerem um discernimento ainda mais fino da consciência. É preciso voltar a ter a folha de papel em branco na frente. É preciso voltar a olhar para dentro e para fora com a aljava da linguagem e refazer o caminho entre o coração e a mente.

Erudito à escrivaninha apontando a pena, Justus Juncker, século XVIII

Não importa que a escrita seja imperfeita.

As linhas da natureza são sinuosas, nunca retas perfeitas.

Carlos Rabello – 13/X/2026