A estratégia vence a força.

Essas palavras aludem a uma das fortes lições contidas no livro “Arte da Guerra” de Sun Tzu. Neste artigo, pretendo mostrar como a arte marcial pode ser uma disciplina que desenvolve não apenas a sua capacidade de lutar e a sua coragem, mas também a sua inteligência. Especialmente a sua capacidade de pensar estrategicamente, ter versatilidade, se adaptar e tirar proveito das situações da sua vida prática.
A violência é uma constante da condição humana

Desde que o homem é homem, esteve sujeito à possibilidade de se engajar em conflitos violentos. Se observarmos outras espécies da família dos hominídeos, tais como os chimpanzés, veremos que agressão, violência e luta são fatores sempre presentes. Olhar para a dinâmica social entre esses animais pode nos dar um insight sobre como eram as dinâmicas de interação entre sociedades humanas em épocas mais primitivas (1). Antes que o ser humano soubesse usar a linguagem, ele já tinha de saber usar o seu corpo para atacar e se defender. A violência, a luta e a guerra também sempre foram variáveis constantes da experiência humana.

A partir do momento em que surge a linguagem e o nosso pensamento se torna mais complexo, surge a possibilidade da reflexão sobre o comportamento combativo, dando origem às técnicas de combate, instrumentos de matar e à organização de contingentes militares. Assim, surge a arte marcial, disciplina mais antiga que a própria civilização humana. Bandos nômades e tribos descentralizadas já desenvolviam os rudimentos de uma técnica de combate, antes mesmo de desenvolver agricultura e comércio.

A propensão à agressão e à interação marcial é tamanha na nossa espécie que crianças têm a tendência de se engajar em brincadeiras de agressão lúdica com seus pais e outras crianças tão logo estejam aptas para isso (2). A participação nessas brincadeiras é extremamente benéfica, não só para o seu desenvolvimento físico, como também psíquico, emocional e social.

À medida que as sociedades evoluem e se tornam mais complexas, também a reflexão sobre o combate se torna mais e mais complexa. Com o surgimento das sociedades muito numerosas e suas concomitantes administrações políticas, a guerra se torna uma ocupação e uma especialização de uma casta social específica de guerreiros e governantes. Quanto mais o ser humano devota o seu tempo e a sua inteligência para estudar o combate, mais vai se desenvolvendo um pensamento de tipo estratégico.
A agressividade é um elemento intrínseco da natureza humana. A arte marcial é a disciplina que doma e canaliza essa agressividade fazendo-a responder ao comando de um discernimento inteligente. Por isso, quanto mais as artes e os artistas marciais evoluem, mais vão se aproximando de um pensamento do tipo estratégico.
O mundo não é feito de materiais inertes que se amoldam gentilmente às nossas ações. Temos de lidar com resistência, obstáculos e conflito. É aqui que a arte marcial entra como uma escola de pensamento estratégico que educa para lidar com os desafios inerentes ao enfrentamento da vida prática.
Quando pensamos estrategicamente, o que estamos fazendo é impor ordem sobre uma realidade caótica. Estratégia é, na verdade, uma tentativa de criar um sistema para lidar com a realidade e canalizá-la para conquistarmos aquilo que mais queremos, seja a vitória em combate, seja o sucesso em um empreendimento.
A prática corporal da arte da guerra
Grosso modo, uma pessoa busca aprender uma arte marcial para saber lutar e se defender. No entanto, muitas pessoas relatam que, para além disso, a arte marcial desenvolve também certas capacidades que as preparam para lidar com o conflito, de maneira geral.

Carl Von Clausewitz definia guerra como zweikampf: duelo de dois. Dois grupos independentes, com vontades opostas e inconciliáveis que se engajam numa luta, um contra o outro, cada qual procurando prevalecer sobre o outro por meio da violência organizada.
Curiosamente, Clausewitz usa o termo duelo, que comumente é usado pra designar combates entre indivíduos. O mais interessante é que a definição dada para guerra é igualmente válida pra um duelo entre dois indivíduos.
A equivalência na definição dos termos “duelo” e “guerra” deixa evidente que estamos olhando para um mesmo tipo de fenômeno, porém com diferentes nuances e em escalas diferentes: o duelo entre duas pessoas é uma guerra em uma escala micro; e a guerra é uma luta em uma escala macro.
É por serem fenômenos do mesmo tipo que existe uma equivalência entre os conceitos e noções estratégicas envolvidos tanto no embate militar, como no embate marcial.
Isso significa que os princípios estratégicos da arte da guerra podem ser abordados e praticados no contexto da arte marcial. Partindo da compreensão de como esses princípios da estratégia se manifestam no embate físico, pode-se, por analogia, pensar a aplicabilidade desse mesmo tipo de orientação e racional estratégico para lidar com conflitos e obstáculos nos outros contextos e circunstâncias.
Recursos desenvolvidos pela educação marcial
Uma arte marcial desenvolve recursos físicos, emocionais e intelectuais.
Os recursos físicos são os mais óbvios: todo o arsenal de habilidades físicas que uma arte marcial enseja. Capacidade de manipular o corpo no espaço, coordenar harmonicamente suas partes para ser capaz de desferir ataques com a melhor alavancagem biomecânica possível, movimentar-se, defletir golpes, esquivar-se, etc.
Os recursos emocionais de saber lidar com o medo: arcar com riscos e ser capaz de agir apesar do medo, ter familiaridade e audácia em face do risco — o que alguns chamariam de coragem. A prática marcial cria as situações que permitem desenvolver tudo isso.
Temos, por fim, o terceiro recurso, que são as capacidades intelectuais da arte marcial. Obviamente que ele está presente nos anteriores também. Um praticante de arte marcial que não explore as técnicas da sua arte inteligentemente acaba não desenvolvendo uma boa habilidade técnica no fim das contas.
Nesse aspecto, a arte marcial traz uma inteligência prática, uma capacidade de discernimento estratégico.
Isso tem como base uma distinção que se faz no manual de guerra da Marinha Americana, entre guerra de atrito e guerra de manobra.
> Guerra de atrito é quando se encara uma situação de conflito batendo de frente. É quando um exército ataca outro exército buscando destruir quantitativamente o exército inimigo, mediante a violência e o dano acumulativos, até que o inimigo se renda, ou seja destruído por completo.
> Já a guerra de manobra é uma abordagem à guerra que visa não à destruição completa, nem a bater de frente, mas estuda estrategicamente o adversário e todos os fatores relevantes em torno para o conflito. E ainda: procura jogar com eles de modo a se colocar numa posição de vantagem estratégica, em que o atrito aplicado será capaz de produzir desarticulação e desmantelamento do sistema e da organização do adversário, de modo a colocá-lo em xeque, rendido.
É essa capacidade de ler as configurações situacionais e adversas, de modo a que se tire proveito das vulnerabilidades críticas e das brechas, para que se tenha êxito nas ações, que a arte marcial pode educar.

Poderíamos de certa forma representar esses diferentes modos de abordar o conflito fazendo alusão a Atena e ao Ares, respectivamente a deusa da sabedoria e o deus da guerra. No entanto, Atena é também a deusa do discernimento estratégico, símbolo da guerra de manobra. Vemos isso claramente na orientação que ela dá a Odisseu. Ao retornar a Ítaca, ela o orienta a avaliar a situação, colocar-se em posição de vantagem estratégica para só então atacar os seus adversários. Já Ares é o deus da guerra. Representa a guerra de atrito, a violência afoita e ininteligente, sedenta por destruição e por beber o sangue dos homens.

Curiosamente, nos embates da Ilíada, Ares sempre é derrotado por Atena. É a prevalência da estratégia sobre a brutalidade. Áres e Atena são duas representações míticas de dois diferentes modos de agir perante obstáculos, conflitos e adversidades. Cabe a nós escolher com qual dessas forças iremos nos alinhar para pautar nossa vida.